A Bíblia descreve os anjos de três formas, e a diferença depende de qual deles está em cena. Os querubins têm quatro rostos, quatro asas e o corpo coberto de olhos. Os serafins têm seis asas: duas para cobrir o rosto, duas para cobrir os pés e duas para voar. E os anjos que aparecem às pessoas para entregar uma mensagem surgem em forma de homem, às vezes com roupas que brilham como relâmpago.

As descrições detalhadas estão em quatro passagens: Ezequiel 1 e Ezequiel 10 (querubins), Isaías 6 (serafins) e Apocalipse 4 (os quatro seres viventes). Fora delas, a Bíblia fala muito de anjos sem dizer como eles são.

A figura mais conhecida, o jovem de túnica branca com asas nas costas, junta coisas que o texto mantém separadas. As asas aparecem nos querubins e nos serafins. Os anjos mensageiros são descritos como homens, e é por isso que várias pessoas na Bíblia os recebem sem perceber quem eram.

Um aviso antes de continuar: os nomes de anjos que circulam por aí e a divisão em nove ordens não estão na Bíblia. Vêm de tradições que nasceram séculos depois do Novo Testamento.

Querubins: quatro rostos, quatro asas e olhos por todo o corpo

Aqui a Bíblia fica detalhada. Ezequiel viu estas criaturas duas vezes, e as duas descrições ocupam capítulos inteiros do livro dele: o capítulo 1 e o capítulo 10.

No capítulo 1, ele chama-os de "seres viventes" e não usa a palavra querubim. No capítulo 10 ele resolve a questão: "Esses seres viventes eram os mesmos que eu tinha visto debaixo do Deus de Israel, junto ao rio Quebar, e percebi que eles eram querubins" (Ezequiel 10:20). São a mesma criatura, vista duas vezes.

e no meio do fogo havia quatro vultos que pareciam seres viventes. Na aparência tinham forma de homem, mas cada um deles tinha quatro rostos e quatro asas. Suas pernas eram retas; seus pés eram como os de um bezerro e reluziam como bronze polido. Debaixo de suas asas, nos quatro lados, eles tinham mãos humanas. Os quatro tinham rostos e asas, e as suas asas encostavam umas nas outras. Quando se moviam, andavam para a frente e não se viravam.
- Ezequiel 1:5-9

Junte as peças e a figura aparece: corpo em forma de gente, pés de bezerro em bronze polido, quatro asas, e mãos humanas debaixo delas. Sobre as mãos, o texto é insistente. Aparecem em Ezequiel 1:8, voltam em 10:8 e voltam outra vez em 10:21.

Os quatro rostos são a parte que mais chama atenção, e a Bíblia dá duas listas que não batem. Em Ezequiel 1:10, os rostos são de homem, de leão à direita, de boi à esquerda e de águia. Em Ezequiel 10:14, o boi sai e entra outro: "Um rosto era o de um querubim; o segundo, de um homem; o terceiro, de um leão; o quarto, de uma águia." Os outros três são os mesmos. O texto não explica a troca.

Falta o detalhe que quase nunca é contado: eles são cobertos de olhos. "Seus corpos, inclusive as costas, as mãos e as asas, estavam completamente cheios de olhos, como as suas quatro rodas" (Ezequiel 10:12).

E as rodas. Elas existem, mas não fazem parte do corpo dos querubins, como às vezes se diz. Ficam ao lado deles, e movem-se com eles.

Enquanto eu olhava para eles, vi uma roda ao lado de cada um deles, diante dos seus quatro rostos. Esta era a aparência das rodas e a sua estrutura: reluziam como o berilo; as quatro tinham aparência semelhante. Cada roda parecia estar entrosada na outra. Quando se moviam, seguiam nas quatro direções dos quatro rostos e não se viravam enquanto iam. Seus aros eram altos e impressionantes e estavam cheios de olhos ao redor.
- Ezequiel 1:15-18

Para que servem os querubins? Guardar. É a primeira coisa que a Bíblia diz deles: depois de expulsar Adão e Eva, Deus "colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida" (Gênesis 3:24).

Essa função de guarda explica um detalhe do tabernáculo. Deus mandou pôr dois querubins de ouro nas pontas da tampa da arca, com as asas estendidas por cima dela e os rostos voltados para a tampa (Êxodo 25:19-20). O povo de Israel via essas figuras, ou seja, tinha uma ideia de como eles eram muito antes de Ezequiel.

Uma última coisa sobre a cena da visão. Acima dos querubins havia "o que parecia uma abóbada, reluzente como gelo" (Ezequiel 1:22), e acima da abóbada, um trono. Os querubins não estão no centro. Eles carregam o que está por cima.

Serafins: seis asas e uma única cena na Bíblia

Os serafins aparecem numa cena só, a visão de Isaías no templo. Dentro dela, o texto os nomeia duas vezes, em Isaías 6:2 e em Isaías 6:6. Fora do capítulo 6, a palavra não volta a aparecer.

Acima dele estavam serafins; cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam.
- Isaías 6:2

Note o que eles fazem com as asas. Só um par serve para voar. Os outros dois pares servem para se cobrir, e é aí que está o sentido da cena: nem os serafins olham Deus de frente.

A função deles é dupla. A primeira é adorar, e a Bíblia registra a frase: "Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória" (Isaías 6:3). O som das vozes fez tremer os batentes das portas.

A segunda função é a que muda a vida de Isaías. Depois de ele dizer "sou um homem de lábios impuros", um dos serafins voa até ele com uma brasa viva do altar, toca a boca dele e diz que a culpa foi removida e o pecado perdoado (Isaías 6:6-7). O serafim não veio explicar nada. Veio limpar.

Os seres viventes de Apocalipse 4 são os mesmos querubins?

É a pergunta certa, porque as duas visões se parecem muito. João também vê quatro criaturas, também com rosto de leão, de boi, de homem e de águia, também cheias de olhos, também ao redor do trono de Deus.

E diante do trono havia algo parecido com um mar de vidro, claro como cristal. No centro, ao redor do trono, havia quatro seres viventes cobertos de olhos, tanto na frente como atrás. O primeiro ser parecia um leão, o segundo parecia um boi, o terceiro tinha rosto como de homem, o quarto parecia uma águia em voo. Cada um deles tinha seis asas e era cheio de olhos, tanto ao redor como por baixo das asas. Dia e noite repetem sem cessar:
"Santo, santo, santo
é o Senhor, o Deus todo-poderoso,
que era, que é e que há de vir".
- Apocalipse 4:6-8

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Só que há duas diferenças que ninguém consegue desfazer. Em Ezequiel, cada criatura tem quatro rostos e quatro asas. Em Apocalipse, cada uma tem um rosto e seis asas. E a frase que elas repetem é a dos serafins de Isaías, não a dos querubins de Ezequiel.

O texto não resolve isso. João não os chama de querubins nem de serafins. A leitura honesta é que se trata do mesmo tipo de criatura, vista por dois profetas em visões diferentes, e que uma visão não é uma fotografia. Ezequiel e João contam o que viram, não posam para um retrato.

Há uma pista de que estas criaturas são coisa distinta dos anjos: em Apocalipse 5:11, João separa os grupos. Ele ouve "a voz de muitos anjos, milhares de milhares e milhões de milhões", e diz que eles rodeavam o trono, "bem como os seres viventes e os anciãos". Anjos de um lado, seres viventes do outro.

Os anjos que aparecem às pessoas têm forma de homem

Quando um anjo é enviado para falar com alguém, a Bíblia descreve um homem. O padrão se repete tantas vezes que é difícil de ignorar.

Em Gênesis 18:2, Abraão "ergueu os olhos e viu três homens em pé, a pouca distância". Um capítulo depois, o texto já os chama de anjos, mas continua a tratá-los como homens: "Os dois homens perguntaram a Ló" (Gênesis 19:12).

Os dois anjos chegaram a Sodoma ao anoitecer, e Ló estava sentado à porta da cidade. Quando os avistou, levantou-se e foi recebê-los. Prostrou-se com o rosto em terra
- Gênesis 19:1

Ló não reconheceu quem eram. Ofereceu abrigo a dois viajantes, como faria a qualquer um. É exatamente por isso que a carta aos Hebreus faz um aviso que só tem sentido se anjos passarem por gente normal: "Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos" (Hebreus 13:2).

No túmulo de Jesus, a descrição é a mesma. Lucas fala de "dois homens com roupas que brilhavam como a luz do sol". Marcos fala de "um jovem vestido de roupas brancas" (Marcos 16:5).

Ficaram perplexas, sem saber o que fazer. De repente, dois homens com roupas que brilhavam como a luz do sol colocaram-se ao lado delas. Amedrontadas, as mulheres baixaram o rosto para o chão, e os homens lhes disseram: "Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou! Lembrem-se do que ele disse, quando ainda estava com vocês na Galileia:
- Lucas 24:4-6

A descrição mais impressionante de um anjo mensageiro está em Mateus, no mesmo episódio. Aqui o anjo brilha, senta-se na pedra do sepulcro, e continua a ser descrito em termos humanos.

E eis que sobreveio um grande terremoto, pois um anjo do Senhor desceu dos céus e, chegando ao sepulcro, rolou a pedra da entrada e assentou-se sobre ela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.
- Mateus 28:2-3

Sobre como eles se deslocam, a Bíblia diz pouco. O único texto direto é sobre o anjo Gabriel, que em Daniel 9:21 "veio voando rapidamente" até o profeta. O versículo diz que ele voou, e não descreve como.

Arcanjo Miguel: o único anjo que a Bíblia chama de arcanjo

"Arcanjo" quer dizer anjo principal, o que ocupa o posto mais alto. A Bíblia usa esse título uma vez, e para um nome só: Miguel. Não há descrição física dele em lugar nenhum.

A passagem que lhe dá o título está na carta de Judas, que se apresenta como "servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago" (Judas 1:1). Ele conta um episódio que não aparece em nenhum outro ponto da Bíblia: uma disputa entre Miguel e o Diabo pelo corpo de Moisés.

Contudo, nem mesmo o arcanjo Miguel, quando estava disputando com o Diabo acerca do corpo de Moisés, ousou fazer acusação injuriosa contra ele, mas disse: "O Senhor o repreenda!"
- Judas 1:9

O detalhe importante é a escolha de Miguel. Sendo o principal entre os anjos, ele não enfrenta o Diabo com autoridade própria. Devolve a questão ao Senhor. Um arcanjo continua a ser um servo.

Miguel aparece mais duas vezes. Em Daniel 10:13 ele é chamado de "um dos príncipes supremos" e vem em socorro de outro mensageiro celeste. E em Apocalipse 12 ele lidera a guerra no céu.

Houve então uma guerra nos céus. Miguel e seus anjos lutaram contra o dragão, e o dragão e os seus anjos revidaram.
Mas estes não foram suficientemente fortes, e assim perderam o seu lugar nos céus.
- Apocalipse 12:7-8

Miguel comanda, mas o crédito da vitória não é dele. Poucos versículos depois, o texto diz de quem é: "Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho que deram" (Apocalipse 12:11).

Há um versículo que costuma gerar confusão. Em 1 Tessalonicenses 4:16, Jesus volta "com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus". O texto não diz que Jesus é um arcanjo. Diz que a ordem dele vem com o peso de uma voz de comando.

Gabriel é o outro anjo que a Bíblia nomeia a serviço de Deus. Ele nunca é chamado de arcanjo: em Lucas 1:26 é "o anjo Gabriel", e é ele que anuncia a Maria o nascimento de Jesus. Fora desses dois, a Bíblia só dá nome a um anjo, e não é um anjo de Deus: o "anjo do Abismo, cujo nome, em hebraico, é Abadom e, em grego, Apoliom" (Apocalipse 9:11).

A Bíblia tem uma hierarquia de anjos?

Não da forma como se costuma apresentar. Existe uma lista famosa com nove ordens de anjos, em três grupos de três, que aparece em quadros e em livros de espiritualidade. Essa lista não está na Bíblia. Ela nasceu em escritos cristãos de séculos depois do Novo Testamento.

O que a Bíblia dá são pistas soltas, e não uma escada organizada. A palavra "arcanjo" indica que há diferença de posto. Daniel 10:13 chama Miguel de "um dos príncipes supremos", o que sugere que existem outros. E Paulo usa quatro palavras de poder de uma vez, sem explicar nenhuma:

"sejam tronos sejam soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele" (Colossenses 1:16).

Note o que Paulo está fazendo ali. Ele não está montando um organograma do céu. Está dizendo que qualquer poder que exista, com qualquer nome que tenha, foi criado por Cristo e existe para Cristo. A lista serve para mostrar que nada fica de fora.

Sobre quantos são, a Bíblia não dá número, dá tamanho. Hebreus 12:22 fala de "milhares de milhares de anjos em alegre reunião". Apocalipse 5:11 vai além: "milhares de milhares e milhões de milhões".

Anjos caídos: o que a Bíblia diz e o que não diz

A Bíblia afirma que houve anjos que se rebelaram e foram expulsos. Não descreve a aparência deles, não dá os nomes deles, e diz menos sobre eles do que a maioria das pessoas imagina.

E, quanto aos anjos que não conservaram suas posições de autoridade mas abandonaram sua própria morada, ele os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande Dia.
- Judas 1:6

O destino deles está selado. Jesus fala do "fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos" (Mateus 25:41). O único que a Bíblia identifica pelo nome é ele: Diabo, Satanás, o dragão. Sobre os demônios, o texto trata como um grupo, sem nomes individuais.

Duas coisas que se dizem sobre os anjos caídos merecem cuidado, porque são leituras e não texto.

A primeira é o nome Lúcifer. Ele não aparece na Bíblia. O que Isaías 14:12 diz é: "Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada!" A palavra latina que deu origem a "Lúcifer" entrou por traduções antigas. E o alvo declarado daquele capítulo é o rei da Babilônia, como o alvo de Ezequiel 28 é o rei de Tiro. Muitos cristãos leem essas duas passagens como apontando também para Satanás, e a imagem do "querubim guardião" expulso do monte de Deus (Ezequiel 28:14,16) puxa nessa direção. Mas o texto nomeia reis humanos, e essa distinção precisa ficar clara.

A segunda é a serpente do Éden. Gênesis 3 não diz que a serpente era um anjo caído, nem que Satanás tomou a forma dela. A ponte entre as duas coisas está no fim da Bíblia, quando João chama o dragão de "a antiga serpente chamada Diabo ou Satanás" (Apocalipse 12:9). É daí que vem a ligação, e não do relato do Éden.

A língua dos anjos na Bíblia

A Bíblia menciona a língua dos anjos uma única vez, e não para descrevê-la. Paulo a usa como exemplo extremo numa explicação sobre o amor: mesmo o dom mais impressionante possível não vale nada sem amor.

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine.
- 1 Coríntios 13:1

Se os anjos têm uma língua própria, o texto não conta. O que se sabe é o oposto: quando um anjo tinha uma mensagem para entregar, ele falava na língua da pessoa. Maria entendeu Gabriel. Ló entendeu os dois visitantes. Isaías entendeu o serafim.

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