Jesus tratou as crianças com um cuidado raro para a sua época. Ele as recebeu quando os discípulos tentaram afastá-las, colocou uma criança no meio dos adultos como exemplo de quem entra no Reino de Deus e advertiu, com palavras duras, contra quem faz mal a um pequenino. Em vez de vê-las como estorvo, mostrou que os pequeninos têm lugar garantido junto d'Ele e ensinam algo que os grandes precisam reaprender: confiar em Deus com a simplicidade de quem ainda não aprendeu a fingir.
A cena mais conhecida aparece em três evangelhos, em Mateus 19, Marcos 10 e Lucas 18, sempre com o mesmo quadro: pais trazendo os filhos para que Jesus os abençoasse. Numa cultura em que a criança tinha pouco valor social e nenhuma voz, o gesto foi uma quebra de expectativa. Jesus parou o que fazia para dar atenção a quem ninguém achava importante.
Jesus recebeu as crianças que tentaram afastar dele
Quando alguns adultos trouxeram crianças para que Jesus tocasse nelas, os discípulos reagiram como muita gente reagiria: tentaram impedir, achando que o Mestre tinha assuntos mais sérios para tratar. A resposta de Jesus foi de indignação.
Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam.
Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: "Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.
Digo a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".
Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou.
- Marcos 10:13-16
A palavra que Marcos usa para a reação de Jesus é forte. Ele não ficou apenas incomodado, ficou indignado com a tentativa de barrar as crianças. E transformou o momento num ensino: o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Não porque a criança seja perfeita ou sem pecado, mas porque ela recebe o que lhe dão sem calcular, sem se achar merecedora, de mãos abertas. É assim que se entra no Reino, recebendo, não conquistando.
O mesmo se repetiu na Judeia, quando trouxeram crianças "para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas" (Mateus 19:13). De novo os discípulos repreenderam, e de novo Jesus abriu espaço, respondendo que "o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas" (Mateus 19:14). O detalhe de Marcos, de que Jesus tomou as crianças nos braços, mostra que não foi um gesto formal. Foi afeto de verdade.
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Quero transformar vidasTornar-se como criança: o ensino sobre humildade
Em outra ocasião, os discípulos discutiam quem seria o maior no Reino dos céus. Jesus respondeu de um jeito inesperado: chamou uma criança e a colocou no meio deles.
Chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: "Eu asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus.
Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus".
- Mateus 18:2-4
Tornar-se como criança não é ser infantil nem ingênuo. É reconhecer que dependemos de Deus para tudo, como uma criança depende dos pais para comer, andar e se sentir segura. O adulto costuma querer resolver sozinho, provar o próprio valor e ocupar o primeiro lugar. A criança que Jesus mostrou não tinha nada disso a oferecer, e era justamente esse o ponto. No Reino de Deus, o maior é quem se faz pequeno.
Havia ali uma correção direta. Os discípulos queriam medir grandeza, e Jesus inverteu a régua. Em vez de perguntar quem sobe mais alto, o Reino pergunta quem se abaixa. Voltar-se para Deus com essa humildade é o que Jesus chama de conversão: parar de confiar em si mesmo e passar a confiar n'Ele.
A responsabilidade de quem cuida dos pequeninos
Jesus não falou apenas do valor das crianças, falou também da responsabilidade dos adultos diante delas. Logo depois de mandar que nos tornássemos como crianças, acrescentou um aviso severo.
"Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo", disse ele, mas "se alguém fizer cair no pecado um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar" (Mateus 18:5-6). Mais adiante, reforçou: "Cuidado para não desprezarem um só destes pequeninos" (Mateus 18:10).
Duas imagens se completam. De um lado, acolher uma criança em nome de Jesus é acolher o próprio Jesus. De outro, ser pedra de tropeço na fé de um pequenino é algo que Deus leva a sério ao extremo. Somando isso ao "não as impeçam" de Marcos 10, o recado fica claro: o adulto pode ser ponte ou barreira entre a criança e Deus. Ensinar, orar junto, dar o exemplo e aproximar os filhos da Palavra é levar a criança a Jesus. Descuidar disso, ou pior, afastá-la, é o contrário.
O que Jesus e as crianças ensinam
Reunindo as cenas, surge um retrato coerente. Jesus valoriza quem o mundo despreza, ensina que se entra no Reino de Deus pela confiança simples e chama os adultos a serem canais desse encontro, nunca obstáculos. Para quem tem filhos, sobrinhos ou alunos, isso pesa na prática: a forma como você fala de Deus, ora com eles e trata a fé deles ajuda a moldar o caminho que vão seguir.
E, para todos, fica o convite de voltar a Deus com o coração de uma criança, sem a autossuficiência que tantas vezes nos afasta d'Ele.
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