Rute e Noemi são duas mulheres do Antigo Testamento cuja história está reunida no livro de Rute, escrito no tempo dos juízes. Noemi era israelita, natural de Belém. Por causa de uma fome, migrou com o marido e os dois filhos para Moabe, onde perdeu os três. Ficou só com as noras moabitas. Rute, uma delas, recusou-se a abandoná-la. Voltou com a sogra para Belém, casou-se com Boaz, parente próximo da família, e teve um filho que entrou na linhagem do rei Davi e, séculos depois, na de Jesus.
A história de Rute e Noemi mostra que Deus trabalha dentro do luto, da pobreza e da migração. Bastou a lealdade de uma estrangeira viúva e a paciência de uma sogra amargurada para mudar o rumo de uma família e abrir o caminho até o Messias, Jesus.
Uma fome em Belém forçou Elimeleque, marido de Noemi, a atravessar a fronteira com a família e se refugiar em Moabe. O plano era voltar quando o tempo melhorasse. Não voltou. Elimeleque morreu ali. Os filhos se casaram com duas moabitas, Orfa e Rute, e, depois de quase dez anos sem terem filhos, também morreram. Noemi ficou sem marido, sem netos e em terra estrangeira. Quando a fome em Belém passou, decidiu voltar.
Na estrada, despedindo-se das noras, a história virou. Noemi insistiu para que Orfa e Rute ficassem em Moabe, com chance de novo casamento. Orfa chorou e voltou. Rute se recusou a deixá-la e fez um dos votos mais conhecidos da Bíblia: o povo da sogra seria o povo dela; o Deus da sogra seria o Deus dela (Rute 1:16). As duas chegaram a Belém na época da colheita da cevada, e Noemi pediu para ser chamada de Mara ("amarga"), porque sentia que o Todo-poderoso tinha amargurado a vida dela (Rute 1:20).
Sem terra e sem marido, Rute foi colher espigas nos campos, direito que a lei dava aos pobres (Levítico 23:22). "Por acaso", foi parar no campo de Boaz, parente próximo de Elimeleque. Ele já tinha ouvido falar do cuidado dela com Noemi.
Boaz mandou os ceifeiros deixarem cair espigas de propósito e ofereceu proteção. Noemi percebeu: Boaz era um possível resgatador, o parente previsto na lei para casar com a viúva e gerar herdeiro em nome do falecido (Deuteronômio 25:5-10). Rute fez o pedido e Boaz aceitou, resolveu um detalhe legal com outro parente que tinha prioridade, e se casou com Rute.
Rute teve um filho, Obede. As vizinhas celebraram com Noemi dizendo que ela tinha agora um resgatador, e foi a sogra que ficou com o bebê ao colo. Obede teve Jessé. Jessé teve Davi, o maior rei de Israel. Séculos depois, na genealogia de Jesus aberta em Mateus, aparecem os mesmos nomes em sequência: Boaz, Obede, Jessé, Davi (Mateus 1:5-6).
A fome em Belém e as três perdas em Moabe
A fome obrigou Elimeleque a sair de Belém. Pegou Noemi e os filhos, Malom e Quiliom, e atravessou o Jordão até Moabe, terra inimiga, mas com pão. O plano era esperar a estação melhorar e voltar. Não voltou.
Elimeleque morreu primeiro. Os filhos, já adultos, casaram com moabitas: Malom com Rute, Quiliom com Orfa. Passaram quase dez anos ali, sem que tivessem filhos. Depois, Malom e Quiliom também morreram. Sobrou Noemi: viúva, sem netos, num país que não era o seu, com duas noras moabitas e ninguém para sustentá-las.
Casar com moabitas não era detalhe pequeno. Moabe era visto com desconfiança em Israel: descendentes de Ló, era um povo associado à idolatria, cujos homens, segundo Deuteronômio 23:3, não podiam entrar na congregação do Senhor. Que dois filhos de uma família de Belém tivessem casado em Moabe e morrido sem deixar herdeiros era, para Noemi, mais do que tragédia familiar. Era um fim de linha.
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Fazer ofertaO voto de Rute e o regresso a Belém
Quando soube que a fome em Belém tinha passado, Noemi decidiu voltar. Não queria arrastar as noras para uma terra estrangeira, onde, sendo moabitas, seriam vistas como intrusas. Aconselhou Orfa e Rute a ficarem em Moabe, perto das próprias mães, com chance de novo casamento.
Orfa chorou, beijou a sogra e voltou para casa. Rute não saiu do lado de Noemi. Foi ali, na estrada, que disse uma das frases mais lembradas de toda a Bíblia:
Não insistas comigo que te deixe e que não mais te acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus!
- Rute 1:16
O voto de Rute é mais do que afeto pela sogra. É confissão de fé. Ela está abrindo mão da terra, da família e dos deuses de Moabe, e amarrando o destino dela ao Deus de Israel. Faz isso sem garantia de marido, sem garantia de pão, e ainda por cima entrando num país que olhava o povo dela como inimigo.
As duas chegaram a Belém no início da colheita da cevada, por volta de abril. A cidade reconheceu Noemi. As mulheres perguntaram se era ela mesma. Noemi pediu que não a chamassem mais por aquele nome, que significava "agradável", e sim de Mara, "amarga". Sentia que o Todo-poderoso tinha tornado a vida dela amarga (Rute 1:20). Voltava com as mãos vazias e o nome trocado.
Boaz e o direito de resgate
Em Israel, a lei permitia que os pobres recolhessem as espigas deixadas pelos ceifeiros nos cantos dos campos (Levítico 23:22). Rute, sem terra e sem marido, se ofereceu para fazer esse trabalho duro. Saiu cedo e, "por acaso", como o próprio texto diz, foi parar exatamente no terreno de Boaz, um parente próximo de Elimeleque.
Boaz reparou nela. Já tinha ouvido falar de Rute, da forma como tinha cuidado de Noemi, da decisão de abandonar Moabe para morar com a sogra. Mandou que os trabalhadores deixassem cair espigas de propósito para ela apanhar. Disse para que bebesse da água deles, comesse com a equipe ao meio-dia e voltasse no dia seguinte. Não era cortesia. Era cobertura.
Noemi entendeu o que estava acontecendo antes mesmo de Rute entender. Boaz não era só parente: era um goel, um "resgatador". A lei de Israel previa que, quando um homem morria sem deixar filhos, um parente próximo podia casar com a viúva e gerar um herdeiro em nome do falecido, mantendo o nome e a terra na família (Deuteronômio 25:5-10). Noemi orientou Rute a procurar Boaz na eira, na noite em que ele dormia perto da colheita, e pedir que assumisse esse papel.
Boaz aceitou, mas havia um detalhe legal: existia um parente ainda mais próximo, com direito de prioridade. Na manhã seguinte, Boaz foi à porta da cidade, juntou os anciãos como testemunhas e chamou o homem. Ele topou comprar a terra de Elimeleque, mas, ao saber que junto vinha o casamento com Rute e o dever de gerar um herdeiro, recuou. Não queria comprometer a própria herança. Boaz assumiu o resgate, casou-se com Rute e comprou a terra da família.
De Obede a Davi: a linhagem que chega até Jesus
Rute deu à luz um filho. O livro registra uma cena rara: as vizinhas vão até Noemi não para lamentar com ela, mas para celebrar. Bendizem ao Senhor por não ter deixado Noemi sem um resgatador, e o bebê é entregue ao colo da avó adotiva (Rute 4:14-16). Chamaram-no de Obede.
Obede teve um filho chamado Jessé. Jessé teve um filho chamado Davi. Davi foi o maior rei de Israel. Séculos depois, na genealogia de Jesus aberta no Evangelho de Mateus, aparecem os mesmos nomes: "Salmom gerou Boaz, cuja mãe foi Raabe; Boaz gerou Obede, cuja mãe foi Rute; Obede gerou Jessé, e Jessé gerou o rei Davi" (Mateus 1:5-6).
A moabita que entrou em Israel sem nada (sem marido, sem terra, sem direito de cidadania plena) terminou bisavó do maior rei de Israel e ancestral direta do Messias. Deus tinha escrito o nome dela na história da salvação enquanto ela ainda apanhava espigas no campo.
O que aprendemos com Rute e Noemi
A história das duas não é só passado distante. Ela toca em coisas que continuam acontecendo: perdas que parecem fim de linha, decisões corajosas tomadas no escuro, gestos de bondade que mudam o rumo de uma família. Cinco lições ficam de pé.
Deus age devagar, mas age. Noemi voltou a Belém amarga, com a sensação de que Deus tinha se voltado contra ela. Levou meses até perceber que Ele estava preparando algo que nem o marido vivo teria conseguido: um neto na linhagem do Messias. Em situações em que parece que nada está se mexendo, como a doença que não passa, o emprego que não aparece, o filho que não volta, é bem possível que Deus esteja trabalhando num plano que ainda não dá para ver.
Lealdade vale mais do que sangue. Rute era moabita, sem obrigação legal nenhuma com a sogra. Orfa fez o que era esperado: voltou para a casa da mãe. Rute fez o que ninguém pediu: ficou. Esse tipo de lealdade não é só com pais e filhos. É com a vizinha viúva da casa ao lado, com o colega que perdeu o trabalho, com o irmão da igreja que está doente.
Quem tem pouco também pode servir. Rute chegou a Belém sem nada e foi para os campos catar espigas como qualquer pobre. Foi esse trabalho duro, do tipo que ninguém aplaude, que a colocou no campo certo, na hora certa. Servir a Deus quase nunca é evento de palco. É o dia atrás do balcão, na enxada, no fogão, na obra.
Boaz é uma figura de Cristo. O goel era o parente que tinha direito e disposição para pagar a dívida do outro, casar com a viúva e devolver o nome à família. Boaz fez isso por Rute. Cristo fez isso por nós. Onde estávamos sem nome, sem terra e sem futuro, Ele chegou como o parente próximo que paga o preço (Hebreus 2:14-15).
A história continua através de pessoas comuns. Noemi não fazia ideia de que tinha um neto na linha do Messias. Boaz não sabia que entraria no primeiro capítulo do Evangelho de Mateus. A grandeza do plano de Deus passa, quase sempre, por decisões pequenas tomadas por pessoas comuns. As suas decisões de hoje contam mais do que parece.
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