A ressurreição de Lázaro é o milagre mais impressionante de Jesus antes da cruz, registrado em João 11. Lázaro, irmão de Marta e Maria e amigo próximo de Jesus, adoeceu em Betânia e morreu. Quando Jesus chegou, o corpo já estava sepultado havia quatro dias. Diante da pedra do túmulo, Jesus orou ao Pai e chamou: "Lázaro, venha para fora". E o morto saiu vivo, ainda envolto em faixas, à vista de muitos judeus.
O texto de João 11 é mais do que o relato de um milagre. É o capítulo em que Jesus declara que é a ressurreição e a vida. E revela isto antes de chamar Lázaro do túmulo.
A ordem importa: primeiro Ele diz quem é "que é a ressurreição e a vida", depois mostra quem é ressuscitando Lázaro. Há três momentos que guardam a chave do capítulo: a demora de Jesus até Betânia, o diálogo com Marta no caminho e o choro diante do túmulo. Cada momento mostra um lado diferente do que Jesus revela sobre si mesmo.
O capítulo aparece perto do fim do evangelho de João. As tensões entre Jesus e os líderes religiosos em Jerusalém já estavam no limite. Pouco antes, eles tinham tentado apedrejá-Lo (João 10:31).
Por isso Jesus tinha saído da cidade. Estava do outro lado do Jordão quando recebeu a notícia de que Lázaro estava doente. Voltar a Betânia, a três quilômetros de Jerusalém, era se aproximar da própria morte. É dentro desse contexto que Lázaro vai morrer e ressuscitar.
Quem era Lázaro e a sua família em Betânia
Lázaro morava em Betânia, aldeia a cerca de três quilômetros de Jerusalém. Era irmão de Marta e Maria, e as três figuras aparecem em outros momentos dos evangelhos: Marta é a que serve, Maria é a que senta aos pés de Jesus, e Lázaro é o irmão amado. Em João 11:5 há um registro de algo raro:
Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro.
- João 11:5 NVI
Nos evangelhos, o afeto pessoal de Jesus raramente é declarado. Esse detalhe não é por acaso. Ele vai ser decisivo para entender por que a demora de Jesus, quando soube da doença de Lázaro parece ser tão estranha.
Um dado que chama a atenção: Lázaro nunca fala em nenhum dos quatro evangelhos. Nem antes de morrer, nem depois de ressuscitar. Ele é o personagem central de um dos maiores milagres da Bíblia e a única coisa que sabemos sobre o que disse é: nada. A sua presença já era suficiente.
Lázaro adoece e as irmãs avisam Jesus
Quando Lázaro adoeceu gravemente, as irmãs enviaram uma mensagem a Jesus. O recado é discreto, quase sem pedido explícito:
Então as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: "Senhor, aquele a quem amas está doente".
- João 11:3 NVI
Elas não disseram "venha logo" nem "cure-o". Apenas informaram e confiaram que o amor de Jesus seria suficiente para motivar uma resposta. Jesus estava do outro lado do Jordão, a uma distância considerável. Quando recebeu a mensagem, respondeu:
Ao ouvir isso, Jesus disse: "Essa doença não acabará em morte; é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela".
- João 11:4 NVI
Do ponto de vista das irmãs, a resposta de Jesus devia parecer encorajadora: a doença não terminaria em morte. Mas o que Jesus estava dizendo era diferente do que elas entenderam. Ele não estava dizendo que Lázaro não morreria. Estava dizendo que a morte de Lázaro não seria a última palavra.
Por que Jesus esperou dois dias
Após receber a notícia da doença de Lázaro, João registra: "Quando ouviu que Lázaro estava doente, ficou dois dias mais no lugar onde estava." (João 11:6).
A espera não foi distração nem esquecimento. O versículo anterior (João 11:5) havia dito que Jesus amava Lázaro. E o versículo seguinte diz que Ele ficou. O texto coloca os dois fatos juntos de forma deliberada: porque amava, ficou.
Isso contradiz a lógica humana sobre o amor. Quando amamos alguém que está sofrendo, o impulso é agir imediatamente. Jesus fez o oposto. E a razão aparece em João 11:14-15, quando Ele explica aos discípulos: "Lázaro morreu, e por amor a vocês fico feliz por não ter estado lá, para que vocês creiam." A demora de Jesus não era ausência de Jesus. Era parte de um propósito maior do que uma cura.
Havia também um elemento relevante. A tradição judaica do primeiro século entendia que a alma ficava nas proximidades do corpo pelos primeiros três dias após a morte, e que apenas no quarto dia a morte se tornava definitiva e irreversível. Quando Jesus chegou, Lázaro estava há quatro dias sepultado (João 11:17). Para quem estava presente, não havia mais nenhuma margem de esperança humana. Era exatamente esse o cenário que Jesus havia esperado.
Marta encontra Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida"
Quando Jesus chegou perto de Betânia, Marta foi ao seu encontro antes mesmo de ele entrar na aldeia. Maria ficou em casa. A cena entre Marta e Jesus é um dos diálogos mais reveladores de todo o Novo Testamento. Marta começa com uma afirmação que carrega tanto fé quanto dor:
Disse Marta a Jesus: "Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, Deus te dará tudo o que pedires".
- João 11:21-22 NVI
Uma comunidade forte na fé cresce junta.
Cresça conosco. Sua contribuição nos mantém unidos.
Contribuir aquiEla acreditava: "Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido", mas a sua fé estava organizada no passado (se tivesses estado aqui). Jesus disse que ele ressuscitaria, mas, mesmo com fé, Marta não cria que seria naquele mesmo momento, mas no futuro: "Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição, no último dia" (João 11:24, NVI). Jesus então vira a pergunta para o presente e diz:
Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?"
- João 11:25-26 NVI
A diferença entre "eu sou" e "eu darei" não é gramatical. Marta esperava um dom futuro. Jesus se apresenta como a fonte presente. A ressurreição não é um evento que Ele administra: é algo que Ele é. Quem crê n'Ele não espera a ressurreição de fora, como se aguardasse num corredor. Já está nela.
Marta responde com uma das confissões de fé mais completas e lindas dos evangelhos:
Ela lhe respondeu: "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo".
- João 11:27 NVI
Ela não entendeu tudo o que Jesus estava dizendo. Mas confiou em quem estava dizendo "Eu sou".
Maria chega e Jesus chora
Marta voltou e chamou Maria em particular: "O Mestre está aqui e está chamando por você." (João 11:28). Maria se levantou depressa e foi ao encontro de Jesus. Os judeus que estavam com ela na casa, consolando-a, seguiram-na, pensando que ela ia ao túmulo chorar.
Chegando ao lugar onde Jesus estava e vendo-o, Maria prostrou-se aos seus pés e disse: "Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido".
- João 11:32 NVI
Maria disse a mesma frase de Marta: "Senhor, se estivesses aqui meu irmão não teria morrido". Era a mesma dor. A mesma fé, mas limitada pelo luto. Mas a resposta de Jesus a Maria é diferente da resposta a Marta. Com Marta, Jesus falou. Com Maria, Jesus viu o choro dela e dos judeus que a acompanhavam, e "comoveu-se profundamente em seu espírito e ficou transtornado" (João 11:33, NVI). O verbo grego original (embrimaomai) descreve uma emoção intensa, quase de angústia. E então o texto registra a frase mais curta da Bíblia:
"Jesus chorou."
- João 11:35 NVI
Este versículo diz algo que não pode ser reduzido: Jesus sabia o que estava prestes a fazer. Em minutos, Lázaro estaria vivo. E mesmo assim, chorou.
A compaixão de Jesus não foi anulada pelo poder de Jesus. Ele não deixou de sentir a dor das pessoas ao seu redor por saber que a situação ia se resolver. Sentiu com elas, antes de agir.
Isso tem algo importante a dizer. Paulo escreveu aos tessalonicenses que eles não deveriam sofrer "como os outros, que não têm esperança" (1 Tessalonicenses 4:13, NVI). Não disse que não deveriam sofrer. Disse que o sofrimento deles tinha uma dimensão diferente: a esperança. Jesus chora e ressuscita ao mesmo tempo. Os dois são reais.
"Lázaro, venha para fora!"
Jesus chegou ao túmulo. Era uma caverna com uma pedra na entrada. Pediu que a pedra fosse removida.
Marta protestou: "Senhor, já cheira mal, pois faz quatro dias que ele está lá." (João 11:39, NVI). Era um protesto prático, concreto, humano. A mesma Marta que havia confessado a fé em Jesus, agora resistia à remoção da pedra pelo motivo mais físico possível. Então Jesus respondeu:
Disse-lhe Jesus: "Não falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?"
- João 11:40 NVI
A pedra foi removida. Então Jesus orou em voz alta:
Então tiraram a pedra. Jesus olhou para cima e disse: "Pai, eu te agradeço porque me ouviste. Eu sei que sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que está aqui, para que creia que tu me enviaste".
- João 11:41-42 NVI
A oração não era para convencer Deus. Era para que as pessoas ao redor entendessem de onde vinha o que estava prestes a acontecer.
E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora.
- João 11:43 ACF
O morto saiu. Ainda com as mãos e os pés amarrados com faixas e o rosto envolto num sudário. Jesus pede para o desatar e o deixar ir. Esse detalhe das faixas vai aparecer de forma diferente no túmulo de Jesus. Quando Pedro entrou no sepulcro vazio após a ressurreição, viu "as faixas ali no chão" e "o lenço que estivera na cabeça de Jesus dobrado separadamente" (João 20:6-7, NVI). Lázaro saiu com as faixas. Jesus deixou as faixas para trás. São dois eventos que usam a mesma linguagem, mas apontam para realidades diferentes.
Por que a ressurreição de Lázaro levou à morte de Jesus
Muitos dos judeus que viram o que aconteceu acreditaram em Jesus. Outros foram contar aos fariseus. O Sinédrio, o conselho dos líderes religiosos judeus, convocou uma reunião de urgência. O argumento era: se deixassem Jesus continuar, todos acreditariam n'Ele, e os romanos viriam destruir o templo e a nação (João 11:48).
Foi nesse conselho que Caifás, o sumo sacerdote daquele ano, proferiu uma das frases mais conhecidas da narrativa da paixão:
"Não percebeis que vos é melhor que morra um homem pelo povo, e que não pereça toda a nação".
- João 11:50 NVI
João acrescenta que Caifás não disse isso por conta própria: era, sem saber, uma profecia sobre o que Jesus faria ao morrer pelos pecados do mundo.
A partir daquele dia, a decisão estava tomada: Jesus devia morrer (João 11:53). E o caso de Lázaro se tornou tão problemático que, mais tarde, os líderes religiosos decidiram que deveriam matar também Lázaro, porque a sua presença viva levava muitas pessoas a crer em Jesus (João 12:10-11).
O sinal mais impressionante de Jesus não resultou apenas em fé. Resultou em uma condenação. A ressurreição de Lázaro foi o sinal que apontou para a cruz e, ao mesmo tempo, o sinal que provocou a cruz.
Ressurreição de Lázaro e ressurreição de Jesus: qual é a diferença?
Podemos atentar em alguns detalhes entre a ressurreição de Lázaro e a ressurreição de Jesus. Lázaro foi reanimado. Voltou ao mesmo corpo, continuou vivendo a sua vida em Betânia e, um dia, morreu de novo. João 12:1-2 o mostra recostado à mesa com Jesus pouco depois do milagre, vivendo normalmente. A sua volta à vida foi real, mas temporária. Ele ainda estava sujeito à morte.
Jesus ressuscitou de forma diferente. Paulo explica em Romanos 6:9: "Cristo ressuscitado dentre os mortos não morre mais; a morte não tem mais domínio sobre ele." E em 1 Coríntios 15:20, Jesus é chamado de "as primícias dos que dormem": o primeiro de uma nova ordem de existência, não o retorno à antiga.
Esses detalhes importam, porque a esperança cristã não é voltar ao que éramos. É ser transformado no que ainda não fomos. A ressurreição de Lázaro foi um sinal que aponta para essa realidade. A ressurreição de Jesus é a realidade em si.
Quanto tempo Lázaro ficou morto?
Quatro dias. João 11:17 registra que, quando Jesus chegou, Lázaro já estava no túmulo há quatro dias. O versículo 39 confirma o detalhe pela boca de Marta: "Já cheira mal, pois faz quatro dias que ele está lá."
O quarto dia tinha um significado específico na cultura judaica do primeiro século: era o ponto além do qual não havia mais nenhuma expectativa humana de vida. Os três primeiros dias podiam, em tese, ser zona de dúvida. O quarto não.
Jesus esperou até esse ponto. Não chegou a tempo de evitar a morte, nem nos primeiros dias, quando a situação ainda poderia parecer ambígua. Chegou no quarto dia, quando a impossibilidade era total, e chamou Lázaro pelo nome.
3 lições da ressurreição de Lázaro
A primeira coisa que essa história diz é que a demora de Jesus não foi abandono. Maria e Marta tiveram fé e esperaram. Enviaram um recado e não receberam resposta imediata. Lázaro morreu. E durante esses dias todos, Jesus não estava ausente: estava no outro lado do Jordão, sabendo o que ia acontecer, deixando que acontecesse por um propósito que elas ainda não podiam ver.
Muita gente vive hoje o equivalente desse intervalo: a oração, o silêncio que veio, a situação que piorou antes de melhorar. A história de Lázaro não explica cada silêncio de Deus. Mas diz que Jesus que demora ainda é Jesus que ama.
A segunda coisa é que compaixão e poder coexistem em Jesus sem que um cancele o outro. Ele chorou diante do túmulo de Lázaro sabendo, naquele exato momento, o que estava prestes a fazer. Não foi uma lágrima de quem não sabia como a história terminaria. Foi a resposta de quem sentiu a dor de pessoas que amava. Para quem acha que Deus está distante das dores humanas porque é poderoso, João 11:35 diz o contrário.
A terceira coisa é a mais simples e a mais profunda. A última palavra sobre Lázaro não foi o cheiro de morte que Marta descreveu. Foi uma voz que chamou pelo nome. Ele disse: "Lázaro, venha para fora." Foi pessoal, pelo nome. Para quem crê em Cristo, a esperança da ressurreição é uma voz que conhece o seu nome.
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