Jesus atravessa Samaria, senta-se cansado à beira do poço de Jacó e puxa conversa com a última pessoa que um mestre judeu abordaria. Do pedido de um gole de água nasce o diálogo mais longo que os Evangelhos registram entre Jesus e uma única pessoa. E é ali, diante de uma mulher samaritana, que ele diz pela primeira vez no Evangelho de João quem realmente é: o Messias.
Tema: Jesus se revela como Messias a quem ninguém procuraria
Objetivo: Mostrar que Jesus toma a iniciativa de se revelar e que quem o encontra de verdade não guarda a notícia para si.
Mensagem central: A água viva que Jesus oferece é ele mesmo, e no poço de Sicar ele se revela como o Messias a uma mulher samaritana, que sai dali como a primeira testemunha de uma cidade inteira.
Texto base: João 4:1-42
Versículo-chave: João 4:13-14
Jesus respondeu: "Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna".
- João 4:13-14
Introdução
O Evangelho de João foi escrito no fim do primeiro século e tem um propósito declarado pelo próprio autor: levar o leitor a reconhecer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Tudo o que João escolhe contar serve a esse alvo, e o capítulo 4 está entre os melhores exemplos disso.
O lugar onde João colocou essa história diz muito. No capítulo 3, Jesus conversa de noite com Nicodemos, um mestre de Israel, homem, letrado, respeitado, e a conversa termina sem resposta clara. No capítulo 4, conversa de dia com uma mulher samaritana, sem nome, sem posição, e a conversa termina com uma cidade inteira atrás dele. João põe os dois encontros lado a lado de propósito.
Para quem prega, isto abre uma porta que a congregação reconhece de imediato. Todo mundo já sentiu que estava fora do círculo, longe demais ou marcado demais para ser procurado por Deus. João 4 responde a isso com uma cena, não com um argumento.
Contextualização de João 4
Judeus e samaritanos compartilhavam origem e livros sagrados, mas tinham rompido havia séculos. Os samaritanos adoravam no monte Gerizim, os judeus em Jerusalém, e cada lado achava que o culto do outro não valia. A rixa era tão forte que muitos judeus faziam um desvio longo só para não pisar em Samaria.
Por isso a frase do versículo 4 é mais forte do que parece. "Era-lhe necessário passar por Samaria" não descreve geografia, porque havia caminho alternativo do outro lado do Jordão. Descreve propósito. Jesus vai por ali porque tem alguém para encontrar.
O cenário reforça o encontro. O poço de Jacó ficava perto de Sicar, numa terra ligada aos antepassados de Israel, e o poço era o ponto de encontro da região, onde a aldeia toda se cruzava. Jesus chega cansado, sozinho, sem nada com que tirar água, e é nessa posição de quem precisa que ele começa a conversa.
5 lições do encontro de Jesus com a mulher samaritana
1. Jesus atravessa a barreira para chegar até você
Era-lhe necessário passar por Samaria.
- João 4:4
O encontro não começa com a mulher procurando Jesus. Começa com Jesus mudando de rota. Ele entra num território que os seus evitavam, senta-se num poço que não é dele e fala com alguém com quem, pelas regras da época, não devia falar em público.
A reação dela mostra o tamanho do muro: "Como o senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beber?" (João 4:9). Ela sabe as regras, e sabe que ele as está quebrando. Jesus não explica nem se justifica. Simplesmente continua a conversa.
Vale notar como ele abre. Não chega oferecendo, chega pedindo. "Dê-me um pouco de água" (João 4:7) coloca-o na posição de quem depende dela, e é esse pedido que derruba a distância antes de qualquer discurso.
Prática: Puxe conversa esta semana com alguém que você costuma evitar.
2. Jesus oferece a água que o poço não dá
Jesus lhe respondeu: "Se você conhecesse o dom de Deus e quem está pedindo água, você lhe teria pedido e dele receberia água viva".
- João 4:10
"Água viva" era expressão comum e queria dizer água corrente, de nascente, oposta à água parada de cisterna. A mulher entende no sentido literal e responde com lógica: o poço é fundo e ele não tem balde. É o primeiro de vários mal-entendidos do diálogo. João usa todos da mesma forma: a mulher entende uma coisa do dia a dia, e Jesus mostra que estava falando de algo maior.
Jesus então marca a diferença entre as duas águas. A do poço mata a sede por algumas horas e obriga a voltar amanhã. A dele vira fonte dentro da pessoa. Não é água melhor, é não precisar mais do poço.
E ela quer. "Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água" (João 4:15). O pedido ainda é bem prático, ela só quer parar de carregar água. Jesus recebe o pedido assim mesmo e trabalha a partir dele.
Prática: Pergunte a Deus hoje o que você tem colocado no lugar dele para se sentir bem.
3. Jesus expõe a verdade sem condenar quem a ouve
Disse-lhe Jesus: "Você falou corretamente, dizendo que não tem marido. O fato é que você já teve cinco; e o homem com quem agora vive não é seu marido. O que você acabou de dizer é verdade".
- João 4:17-18
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Fazer ofertaA leitura mais repetida transforma esta mulher numa figura de má fama e faz da hora do meio-dia a prova de que ela fugia das vizinhas. O texto não diz nada disso. Jesus não a chama de pecadora, não pede arrependimento e não fala em adultério.
Cinco casamentos, numa sociedade em que a mulher quase nunca podia dar início a um divórcio, apontam antes para viuvez e abandono, maridos que morreram ou que a mandaram embora. Ou seja, para alguém que foi deixada cinco vezes, não para alguém que abandonou cinco homens. E o sexto homem, com quem ela vive sem casamento, é mais provavelmente a única forma de sustento que lhe restou. Ela está mais perto da vítima do que da culpada, e pregar o contrário é acrescentar ao texto um peso que Jesus não colocou.
O que ele faz é outra coisa. Mostra que conhece a história dela inteira, e continua ali sentado, conversando. É isso que ela reconhece quando diz "Senhor, vejo que é profeta" (João 4:19). A verdade dita assim não a esmaga, abre o próximo passo da conversa.
Prática: Conte a Deus hoje aquilo que você esconde de todo mundo.
4. Jesus se revela como o Messias
Então Jesus declarou: "Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você".
- João 4:26
Antes de chegar aqui, a mulher desvia. Levanta a velha disputa entre o monte Gerizim e Jerusalém, a pergunta sobre qual é o lugar certo de adorar (João 4:20). Jesus não foge do assunto nem se prende a ele: redireciona a adoração para o espírito e a verdade, tema que tem tratamento próprio no esboço sobre a verdadeira adoração, e segue em frente.
Porque o destino da conversa é outro. Ela diz que espera o Messias, aquele que "explicará tudo para nós" (João 4:25), e Jesus responde com a frase mais direta que diz sobre si mesmo em todo o Evangelho de João até aqui. Não é uma parábola nem uma pista. Ele diz com todas as letras quem é.
Vale ver a quem isso é dito. Não é ao tribunal religioso de Jerusalém, não é a Nicodemos, não é à multidão na capital. É a uma mulher samaritana, sozinha, no meio de uma conversa sobre balde e poço. A primeira pessoa a ouvir de Jesus que ele é o Messias é alguém que o mundo religioso da época não teria escolhido.
Prática: Escreva hoje, com as suas palavras, quem Jesus é para você.
5. Jesus transforma quem ele encontra em testemunha
Então, deixando o seu cântaro, a mulher voltou à cidade e disse ao povo: "Venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito. Será que ele não é o Cristo?"
- João 4:28-29
O cântaro ficou para trás. Ela tinha ido buscar água e volta sem ela. O que a levou até ali deixou de importar. A mulher que evitava a cidade é agora a que corre para dentro dela.
O testemunho dela não é elaborado. Conta o que aconteceu com ela e termina numa pergunta, "Será que ele não é o Cristo?", deixando o resto para os ouvintes. Ela não espera ter tudo resolvido para falar, e mesmo assim funciona: "Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa do seguinte testemunho dado pela mulher" (João 4:39).
E João mostra onde isso vai dar. Os samaritanos pedem que Jesus fique, ele fica dois dias, e no fim eles dizem à mulher: "Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo" (João 4:42). O testemunho dela levou-os até Jesus, e Jesus fez o resto. É assim que a história dela termina, com um povo inteiro chamando Salvador do mundo o homem que ela encontrou no poço.
Prática: Conte a alguém esta semana o que Jesus fez na sua vida, mesmo que nem tudo esteja resolvido.
Conclusão
João 4 não conta a história de uma mulher que se corrigiu. Conta a história de um Jesus que sai do caminho previsto, senta-se cansado num poço e se revela a quem ninguém teria escolhido. A água viva que ele promete acaba sendo ele mesmo, e o encontro termina com uma cidade inteira reconhecendo o Salvador do mundo.
Talvez você esteja em algum ponto dessa conversa. Talvez ainda esteja discutindo o balde e o poço, ou desviando para uma questão religiosa quando a conversa aperta, ou achando que a sua história o deixou longe demais de Deus. Aquela mulher estava em todos esses lugares, e nenhum deles impediu Jesus de dizer quem era.
Então largue o cântaro. Deixe no chão aquilo que você trouxe para o poço achando que era o essencial, e receba a água que não obriga a voltar amanhã. E quando receber, faça o que ela fez: não espere entender tudo para contar a alguém.
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