O rei Ezequias orou a Deus em dois momentos decisivos da sua vida, e a Bíblia guardou as duas orações. Na primeira, com o exército assírio às portas de Jerusalém, ele pediu livramento. Na segunda, doente e prestes a morrer, pediu mais tempo de vida. Nas duas vezes Deus ouviu, e a resposta mudou o rumo da história.

1. A oração de Ezequias diante da ameaça de Senaqueribe

Senaqueribe, rei da Assíria, comandava a maior potência militar da época e já havia engolido nação após nação. Uma a uma, as cidades fortificadas caíam, e nem os deuses desses povos conseguiam salvá-las. Quando chegou a vez de Judá, o rei assírio enviou uma carta a Ezequias, exigindo rendição e zombando do Deus de Israel. Para ele, o Senhor não passava de mais um ídolo de madeira e pedra, incapaz de defender o seu povo.

Ezequias não tinha exército para enfrentar os assírios em campo aberto, e a pressão para se render era enorme. Mas ele fez outra coisa. Subiu ao templo, abriu a carta do inimigo diante do Senhor e orou, como quem entrega o problema inteiro nas mãos de Deus:

Ezequias recebeu a carta das mãos dos mensageiros e a leu. Então subiu ao templo do Senhor e estendeu-a perante o Senhor.

E Ezequias orou ao Senhor: "Senhor, Deus de Israel, que reinas em teu trono, entre os querubins, só tu és Deus sobre todos os reinos da terra. Tu criaste os céus e a terra.

Dá ouvidos, Senhor, e vê; ouve as palavras que Senaqueribe enviou para insultar o Deus vivo.

É verdade, Senhor, que os reis assírios fizeram de todas essas nações e seus territórios um deserto. Atiraram os deuses delas no fogo e os destruíram, pois não eram deuses; eram apenas madeira e pedra moldadas por mãos humanas.

Agora, Senhor nosso Deus, salva-nos das mãos dele, para que todos os reinos da terra saibam que só tu, Senhor, és Deus".
- 2 Reis 19:14-19

Vale a pena notar o que Ezequias pede, e o que ele não pede. Não busca fama, nem que Deus o poupe por causa dos seus méritos. O centro do pedido é a honra de Deus: que todos os reinos saibam que só o Senhor é Deus. Ezequias entende que a zombaria de Senaqueribe é, no fundo, contra o próprio Deus vivo. Por isso devolve ao Senhor a causa que sozinho não conseguia resolver.

Deus responde e livra Jerusalém

A resposta veio pelo profeta Isaías, e foi direta: Deus tinha ouvido a oração. O Senhor declarou que Senaqueribe não entraria em Jerusalém, nem dispararia uma só flecha contra a cidade. Não levantaria rampas de cerco, e voltaria pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. O motivo não estava na força do povo, mas em Deus: ele defenderia a cidade por amor de si mesmo e do seu servo Davi.

O que aconteceu em seguida confirmou cada palavra. Naquela mesma noite, o anjo do Senhor feriu cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento assírio. Pela manhã, o campo inimigo estava coberto de cadáveres. Sem exército para sustentar o cerco, Senaqueribe recuou para Nínive, onde tempos depois foi morto pelos próprios filhos enquanto adorava o seu deus. O império que zombava do Deus vivo não conseguiu disparar uma única flecha. A mesma oração, com o mesmo desfecho, aparece também em Isaías 37.

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2. A oração de Ezequias na doença

Algum tempo depois, a ameaça já não vinha de fora, mas de dentro do próprio corpo. Ezequias adoeceu gravemente e chegou às portas da morte. O profeta Isaías foi visitá-lo, mas não trouxe consolo. Da parte de Deus, veio um aviso duro: o rei deveria pôr a casa em ordem, porque não se recuperaria. Não era uma doença qualquer; era uma sentença.

Diante da própria morte anunciada, Ezequias não discutiu com o profeta nem se resignou em silêncio. Virou o rosto para a parede, longe de todos, e orou entre lágrimas. Diante de Deus, lembrou a vida de fidelidade que havia procurado levar:

Lembra-te, Senhor, como tenho te servido com fidelidade e com devoção sincera. Tenho feito o que tu aprovas.
- 2 Reis 20:3

É uma oração curta, quase sem palavras, feita mais de choro do que de argumentos. Ezequias não constrói um grande discurso. Apenas se volta para Deus de coração aberto, no momento em que nem a medicina nem o poder do rei podiam fazer mais nada.

Como Deus respondeu ao rei doente

A resposta foi tão rápida que alcançou o profeta antes mesmo de ele deixar o palácio. Deus mandou Isaías voltar e dizer a Ezequias que a sua oração tinha sido ouvida, e as suas lágrimas, vistas. O Senhor prometeu curá-lo: em três dias ele voltaria a subir ao templo e ganharia mais quinze anos de vida. Junto com a cura, veio também a promessa de livrar o rei e a cidade das mãos da Assíria.

A cura veio pelo caminho comum e pelo extraordinário ao mesmo tempo. Isaías mandou aplicar um emplastro de figos sobre a ferida, e Ezequias se recuperou. Para confirmar que a promessa vinha de Deus, o Senhor deu um sinal: a sombra na escadaria de Acaz recuou dez degraus, contra o curso normal do dia. Esse episódio é recontado em Isaías 38, que guarda ainda o cântico de gratidão escrito por Ezequias depois da cura. É um dos textos mais tocantes da Bíblia sobre voltar a viver depois de encarar a morte.

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O que a oração de Ezequias ensina

As duas orações seguem o mesmo caminho, ainda que as ameaças fossem bem diferentes. Ezequias não esconde o problema nem finge uma força que não tem. Ele leva a Deus exatamente o que está vivendo, seja o exército inimigo às portas, seja o medo de morrer. Antes de pedir qualquer coisa, reconhece quem Deus é: o Criador dos céus e da terra, Senhor sobre todos os reinos. O pedido nasce dessa confiança, e não de uma fórmula pronta. Uma vez ele ora com a carta do inimigo estendida no templo; outra, com o rosto virado para a parede e os olhos cheios de lágrimas.

A história também não ensina que a oração afasta toda dificuldade. Ezequias ainda enfrentou o cerco e ainda passou pela doença. A diferença é que não os enfrentou sozinho, e a saída, nas duas vezes, não veio da força dele, mas da resposta de Deus. Para quem lê hoje, o convite é o mesmo: levar a Deus o que pesa, seja qual for a ameaça ou a perda. Basta fazê-lo com sinceridade, confiando que ele ouve quem se volta para ele de coração aberto. No fim, a oração de Ezequias revela um Deus que se importa tanto com uma nação cercada quanto com as lágrimas de um homem sozinho no quarto.

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