O capítulo 6 de 2 Reis traz três histórias em que Deus age onde ninguém esperava: num machado que caiu no rio, num exército que cercou o profeta e numa cidade tomada pela fome. As três falam da mesma coisa: aquilo que os olhos conseguem ver. Quem enxerga só o problema à frente entra em pânico. Quem enxerga o que Deus está fazendo fica firme no meio da crise.
Eliseu faz um machado de ferro voltar a boiar depois de cair no rio, avisa o rei de Israel sobre os ataques secretos da Síria e, cercado na cidade de Dotã, mostra ao servo apavorado um exército de fogo que ele ainda não tinha visto. Depois, um exército cerca Samaria, a fome toma conta e o povo se desespera. O capítulo termina sem solução: a resposta para esse desespero só chega no capítulo 7.
O que o capítulo ensina cabe numa frase: Deus cuida tanto do menor problema, um machado no fundo do rio, quanto da maior crise, uma cidade inteira com fome. E o que resolve a situação quase nunca é o que se vê primeiro. É aquilo que só enxergamos quando Deus abre os nossos olhos.
O milagre do machado que flutuou (2 Reis 6:1-7)
Os discípulos de Eliseu, chamados de filhos dos profetas, ficaram sem espaço e foram até o rio Jordão cortar madeira para construir um lugar maior. Enquanto um deles derrubava uma árvore, a cabeça de ferro do machado soltou-se do cabo e afundou. O desespero do homem não foi exagero: o machado era emprestado, e ferro custava caro naquela época. Ele não tinha como pagar a dívida.
Quando um deles estava cortando um tronco, o ferro do machado caiu na água. Ele gritou: "Ah, meu senhor, era emprestado!" O homem de Deus perguntou: "Onde caiu?". Quando o homem lhe mostrou o lugar, Eliseu cortou um galho e o jogou ali, fazendo o ferro flutuar
- 2 Reis 6:5-6
O ferro voltou a boiar, e o homem esticou o braço e o pegou de volta.
A cena é pequena de propósito. Não há exército, nem rei, nem nação em jogo, apenas um trabalhador cheio de dívida e uma ferramenta no fundo do rio. E é aí que Deus age. O mesmo profeta que vai parar exércitos se importa com a dívida de um homem comum. Para quem acha que seus problemas são pequenos demais para Deus olhar, esta é a primeira resposta do capítulo.
Toda grande missão precisa de pessoas comprometidas.
Sua doação recorrente sustenta esta missão.
Me comprometoOlhos abertos para o exército invisível (2 Reis 6:8-23)
O rei da Síria vivia frustrado. Toda vez que armava uma emboscada contra Israel, Eliseu avisava o rei israelita, e o ataque fracassava. Convencido de que havia um traidor entre os seus, o rei sírio descobriu que o problema era o profeta e mandou um exército cercar a cidade de Dotã durante a noite.
De manhã, o servo de Eliseu saiu, viu a cidade rodeada de cavalos e carros e entrou em pânico. Eliseu, não. A resposta dele inverte a conta que o servo estava fazendo: os que estão do nosso lado são mais do que os que estão contra nós (2 Reis 6:16). Então orou:
Então, Eliseu orou: "Senhor, abre os olhos dele para que veja". O Senhor abriu os olhos do servo, que olhou e viu as colinas cheias de cavalos e carruagens de fogo ao redor de Eliseu.
- 2 Reis 6:17
O servo não estava cego. Ele enxergava muito bem o exército inimigo. O que lhe faltava era ver a outra metade da realidade, a proteção que já estava ali. São os mesmos cavalos e carros de fogo que levaram Elias ao céu (2 Reis 2:11), agora montando guarda em volta de Eliseu.
Depois Eliseu ora de novo, e desta vez pede o contrário: que os soldados sírios fiquem cegos. Deus atende, e o profeta conduz o exército confuso para dentro de Samaria, bem no meio dos israelitas. Era a chance perfeita para um massacre. Mas Eliseu manda o rei alimentá-los e mandá-los de volta para casa. Os ataques dos sírios param por um tempo.
A lição não é só que Deus protege. É como Ele protege. O mesmo poder que cega um exército também escolhe poupá-lo. Quem confia em Deus pode baixar a espada, porque a vitória não depende de revidar o ataque (Romanos 8:31).
O cerco de Samaria e o silêncio de Deus (2 Reis 6:24-33)
Algum tempo depois, a trégua acaba. Ben-Hadade, rei da Síria, volta e cerca Samaria. O exército cerca a cidade e não deixa entrar comida, e a fome começa. O texto mostra a gravidade pelo preço da comida: uma cabeça de jumento, carne que ninguém comeria em tempos normais, era vendida por oitenta peças de prata.
A crise chega a um ponto em que o texto não suaviza. Duas mulheres combinam comer os próprios filhos para não morrer de fome, e uma delas leva o caso ao rei (2 Reis 6:28-29). É uma das páginas mais duras da Bíblia, e não está ali por acaso. Séculos antes, Deus havia avisado que o abandono da aliança (o acordo entre Deus e o povo) levaria o povo exatamente a esse extremo durante um cerco (Deuteronômio 28:53). A fome de Samaria é a consequência de um povo que se afastou de Deus, não um acaso.
O rei de Israel ouve a mulher, rasga as roupas em sinal de luto e descarrega a culpa em Eliseu, jurando matá-lo. No último versículo do capítulo, ele desiste de esperar:
Esta desgraça vem do Senhor. Por que devo ainda ter esperança no Senhor?
- 2 Reis 6:33b
E é aqui que 2 Reis 6 termina. Sem solução. Com a cidade faminta e o rei sem esperança. A resposta de Deus a essa pergunta existe, mas está no capítulo 7, quando Eliseu anuncia que em 24 horas haveria fartura. O capítulo 6 fecha de propósito no escuro, no momento em que crer parece não fazer mais sentido.
Aprender a enxergar a mão de Deus
As três cenas de 2 Reis 6 falam de níveis diferentes de dificuldade, mas tratam do mesmo problema: o que os nossos olhos conseguem ver. No rio, o homem só via a dívida. Em Dotã, o servo só via o exército. Em Samaria, o rei só via a fome. Em cada caso, Deus estava agindo num plano que eles ainda não enxergavam.
Isso não significa fechar os olhos para a realidade. O machado tinha mesmo afundado, o exército estava mesmo ali, a fome era real. A fé não nega o problema visível, ela acrescenta a parte que falta na conta. Para quem está com as contas no vermelho, com um diagnóstico na mão ou com um filho longe de casa, o capítulo não promete que o cerco vai acabar hoje. Ele mostra que existe mais ao redor do que os olhos enxergam, e que vale a pena continuar esperando, mesmo quando o rei de Samaria já havia desistido.
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